Virgínia subiu precipitadamente a escada e trancou-se no quarto.
— Abre, menina — ordenou Luciana do lado de fora.
Virgínia encostou-se à parede e pôs-se a roer as unhas, seguindo com o olhar uma formiguinha que subia pelo batente da porta. "Se entrar aí nessa fresta, você morre!", sussurrou soprando-a para o chão. "Eu te salvo, bobinha, não tenha medo", disse em voz alta. E afastou-a com o indicador. Nesse instante fixou o olhar na unha roída até a carne. Pensou nas unhas de Otávia. E esmagou a formiga.
— Primeiro parágrafo
Ciranda de Pedra conta a história de formação e perda da inocência de Virgínia, procurando pertencer a um espaço familiar.
[ mega SPOILERS a seguir ]
O livro é estruturado em capítulos e dividido em duas partes.
Lygia narra o mundo de Virgínia como uma experiência interna / universo interior; combinando fragmentos de sensações, pensamentos e memórias com acontecimentos, ações e diálogos. Narrado em terceira pessoa, mas pelo ponto de vista de Virgínia.
A escrita é muito imagética e "colorida", alternando ações no mundo externo com pensamentos, auto-interações e observações internas, expressando sentimentos por meio de gestos e sensações (em vez de declarações diretas). Isso torna a experiência emocional da personagem mais concreta e identificável.
Genial o início: acontece uma cena entre dois personagens mas uma série de ações e pensamentos acontecem em separado — os pensamentos, frustrações, ou até ações como morder uma afta. Isso torna o início dinâmico; as personagens tem um eu interno e um eu externo e esses estão desalinhados. Logo no primeiro parágrafo somos apresentados ao fato que Virgínia roi as unhas, e daí começa a caracterização dela: mente, lembranças, preocupações, contradições, desejos, raiva, sentimentos.
Como a narrativa é filtrada pela criança, o comportamento dos adultos permanece enigmático para Virgínia, enquanto o leitor adulto pode inferir mais. Paira a tensão sobre o motivo real da separação dos pais e sobre o que é ocultado da menina.
Destaque para a cena em que Virgínia olha um porta-retratos e fantasia contar à mãe uma história escolar mais triunfante; no meio da imaginação, Laura (no delírio) confunde a filha com Daniel, interrompendo o devaneio e evidenciando a complexidade da forma narrativa.
A primeira parte mostra as tentativas frustradas de Virgínia de formar vínculo, ou participar de círculos de familiares e amigos, sejam a mãe, o pai, as irmãs, os vizinhos. Em um momento ela tenta entrar em um círculo de anõezinhos de jardim de pedra, porém de pedra eles permanecem imóveis e suas mãos não se abrem para receber Virgínia como parte do grupo. Lygia estabelece esse paralelo entre esse círculo de estatuetas com os grupos sociais que Virgínia tem acesso, como uma ciranda de pedras.
Eu vejo esses personagens como pessoas complacentes, acomodadas e rígidas cada uma nos seus jeitos e seus lugares na ciranda. A tentativa de entrar na ciranda de anões é quase tão difícil como a tentativa de entrar na ciranda de pessoas. Pessoas paradas no tempo, imutáveis. Não parecem se esforçar. Parecem complacentes com a situação de cada um deles.
( Anotação que achei depois: )
( )
( a ciranda de pedra é )
( os anoes de jardim em )
( um circulo de maos dadas )
( virginia tenta entrar )
( nesse circulo quando )
( crianca e nao consegue )
( os anoes de pedra )
( representam seus amigos )
( e familiares, imoveis )
( nao ajudam nem atrapalham )
( ms virginia vai passando )
( pela mao de cada um )
Achei a primeira parte incrível e muito impactante, concluindo com a perda da inocência da personagem através de uma série de tragédias e a ruptura total das suas expectativas. Através dessa narrativa interna que mistura os pensamentos com as ações, Lygia constrói um personagem como poucos que já vi. É muito fácil se identificar com alguma coisa em Virgínia pois vemos nela um retrato de como uma pessoa pensa e age e deseja.
A personagem é criança e a ela escapam certos conhecimentos sobre o mundo e sobre seus pais que podemos inferir como leitores, ou suspeitar que as coisas não são tão bem assim como ela imagina. A delicadeza como Lygia faz esse delineamento gera uma expectativa crescente no leitor que se soma ao clímax da primeira parte. Algumas coisas o leitor pode ter deduzido mas outras talvez ainda venham a lhe surpreender.
É quase uma história por si só e termina com as expectativas e realidade da personagem completamente fraturadas, que a levam à decisão de se afastar da família por meio do internato no colégio.
A parte dois retoma a narrativa após um lapso de tempo; Virgínia já é adulta e acabou de sair do internato. Essa parte tem mais nuance, talvez seja mais complexa e não oferece altos e baixos tão dramáticos quanto a primeira parte.
Virgínia tenta novamente se envolver com a família, se vendo agora como uma pessoa mais segura (?), mas não encontra sucesso; no entanto, descobre que as pessoas sexualmente viáveis todas tem um interesse romântico por ela.
Reforça-se a ideia de personagens incapazes de estar presentes para os outros: quem visita Frau Herta é Virgínia, enquanto as irmãs a abandonam, e a protagonista acaba acompanhando mais de perto a doença e a morte. Paralelo forte com Laura na parte 1 e ninguém da família te-la visitado.
Ela tem uma conversa final muito reveladora com Otávia e acho que fica claro para a personagem que essas pessoas têm suas fraquezas, e que o mundo não é muito como Virgínia pensava. O fim serve para desmascarar o universo interior da personagem, para mostrar que aquelas pessoas não são apenas o que ela pensou — ainda uma quebra de expectativa.
Ela termina decidindo se desvencilhar novamente desse grupo de pessoas, dessa vez fazendo uma viagem para o exterior, passagem só de ida.
De início não entendi muito as razões da parte 2 e o final. O livro definitivamente cai um pouco de qualidade do meio pro fim, perde um pouco desse brilho da primeira parte. Entendo que a segunda parte é importante para estabelecer que aquelas pessoas não são exatamente o que Virgínia pensou, e mesmo assim a expectativa dela não é atingida.
A coisa do Conrado confessar o amor por ela acho bem desnecessário — uma vontade de Lygia de mastigar demais certas coisas para o leitor. Novelesco. Porém talvez sirva, assim como a conversa com Otávia, para sedimentar essa etapa de crescimento de Virgínia, entendendo que ela tem que temperar suas expectativas sobre si mesma e sobre os outros, que sua visão do mundo e dos outros não é totalitária nem completa. Mostra um crescimento dela, que cresceu além desse namoro com Conrado — mas esse tipo de desfecho mostra a necessidade da autora de mastigar demais as coisas para o leitor e dar um desfecho que não precisaria.
Outra coisa que acho extremamente fraca é que a fuga de Virgínia depende dos recursos materiais de Natércio. Na primeira parte é o internato, na segunda parte a viagem para o exterior. Tragédia de rico. São escapes fáceis e fracos narrativamente, bem "burgueses": a fuga pro internato, a fuga para a viagem. Se proposital, é uma grande dica para a desgraça futura de Virgínia, que tem fugido de si mesma, tentado encontrar soluções nos outros, e essa nova fuga não vai ajudar em nada. Pelo menos ao não aceitar a concretização do romance até então platônico com Conrado ela demonstra algum crescimento — quem sabe pode ser diferente dessa vez.
Laura é mostrada em sofrimento psíquico, com imagens recorrentes de um besouro e de aprisionamento por raízes. Há cenas em que mãe e filha não conseguem realmente se comunicar: Virgínia tenta falar de família e evitar o delírio, enquanto Laura fica presa a lembranças e associações que a filha não quer reviver.
A partir da perspectiva limitada de criança, Virgínia sente que ela e a mãe estão "aprisionadas" contra a própria vontade e acredita que a mãe deveria voltar para o ex-marido. Daniel e Luciana aparecem, no olhar da menina, como obstáculos ou parte de um possível complô contra seus desejos.
“Ó boca da fonte, boca generosa dizendo
inesgotavelmente a mesma água...
— RILKE, SONETOS A ORFEU, II, 15”
Tinha uma expressão zombeteira e seu tom de voz era suave. Mas havia qualquer coisa de dilacerado sob aquela suavidade.
— Sobre Luciana, cap 1
baixando os olhos ao passar diante do espelho do armário. Tinha vontade de esmurrar aquela sua figura espichada, de cabelos pretos e escorridos, iguais aos da bruxa de pano
— cap 1
Um dia o besouro caiu de costas. E besouro que cai de costas não se levanta nunca mais
— cap 1
a mariposa se deixava envolver sem nenhuma resistência no viscoso tecido cinzento que a aranha ia acumulando em torno de suas asas. Assim via a mãe, enleada em fios que lhe tapavam os ouvidos, os olhos, a boca. Não adiantava dizer-lhe nada.
— cap 1
ela que se tornara uma figura tênue como um sonho na escuridão
— cap 4
“Last night I flew into the tree of death;
Sudden an outer wind did me sustain;
And I, from feathered poppet on its swing,
Wrapt in my element, was bird again.”
— Personagem Daniel cita Charles Morgan's Sparkenbroke
(achei graças a https://lixeiraoutravez.blogspot.com/2010/08/pra-nao-deixar-isso-largado.html)
https://incarnateword.in/journals-and-magazines/mother-india-1949-2022/1949-fortnightly/lover-poet-mystic-sparkenbroke
sparkenbroke--charles-morgan
Fiz tudo para tirar meu pai de mim, tudo. E não adiantou, ele está nos meus cabelos, na minha pele, no meu sangue...
— cap 7
Ainda é cedo, mas um dia vou ter ódio dele
— cap 7
até o ar eu odiei com aquele cheiro característico, mistura de flores murchas e incenso
— p2 cap 1
Sentiu-se de repente opaca ao lado da irmã luminosa, os seios quase descobertos sob o tecido transparente, as pernas nuas. Não teria exagerado aparecendo assim no pesado uniforme do colégio? Com o intuito de não chamar a atenção não estaria por isso mesmo chamando — e de que forma!
— p2 cap 2
Embora sem conseguir vê-la, Virgínia sentia algo de pegajoso naquela boca que se movia mais lenta, mais úmida. Era desagradável também o contato daqueles dedos girando no seu braço. Mas fora a primeira a lhe oferecer um lugar na roda.
— p2 cap 2
Gymnopedie
— Conrado toca para vivs no p2 cap 3
https://www.youtube.com/watch?v=TL0xzp4zzBE
é preciso amar o inútil
— Conrado, p2 cap 4
Uma caricatura de rapaz.
— sobre Letícia p2 cap 5
égua bíblica
— sobre Bruna p2 cap 3
donzela folhetinesca
— Otávia, sobre Vivs p2 cap 5
Virgínia meneou vagarosamente a cabeça. Letícia não podia entender, ninguém podia entender aquilo. Ah, o prazer de imaginar a cena com toda a riqueza de minúcias.
— p2 cap 5
“Sentia um gozo obscuro em ir passando de mão em mão.”
— p2 cap 5
“O adultério e a adúltera morrerão e o mal será arrancado do seio de Israel, não era assim que Bruna falava? E ei-la agora bebendo da mesma água”
— p2 cap 6
“Nunca conseguira na hora certa o que mais desejara. Ou vinha tudo com atraso enorme ou então não vinha nunca.”
— p2 cap 6
“A pior coisa que podia acontecer era mostrar-se cruel para com as pessoas. E as pessoas morrerem e não se ter tempo para fazer mais nada por elas. “Meu pobre pai”
— p2 cap 6
ai ela foi e mostrou-se cruel depois kkk
“E para sua vaidade, a dor da derrota superava o prazer de saborear o desespero da mulher”
— p2 cap 6
“São Francisco de Assis burguês”
— sobre Conrado p2 cap 6
“Nunca ele conseguira apagar nada. Sim, devia ter sido imenso o seu amor por Laura para não ter podido perdoá-la, nem a ela nem a si próprio. Que pensamentos o alimentavam naquele longo abandono? Otávia lembrava-lhe a enferma no início da demência. Nela, Virgínia, ele via Daniel. Restava Bruna. Mas Bruna traíra Afonso. E ele não suportava a traição.”
— sobre Natércio p2 cap 9
centaura mística
— sobre Bruna p2 cap 9
Era apenas um som anônimo, perdido na tarde.
— Ultima frase
“A formiga é o duplo de Virgínia”
— posfacio
“A inveja apressa o desejo de morte”
- posfacio
“Você, recusada? — Letícia atirou na lareira o cigarro ainda inteiro. — Mas se todos a disputamos...”
todo mundo ja se comeu na ciranda de pedras
formiga, besouro, raizes, escuridao, lagarta, mariposa, aranha,
romance-de-formacao coming-of-age
3rd-person-narrative
female-protagonist
child-protagonist
perda-da-inocencia
pertencimento
luto grief
suicidio ideacao-suicida
loucura madness
ansiedade
clube-ditadura