mentions:
- book: armance
author: stendahl
year: 1827
chapter: 1
- book: la boheme
chapter: 2
- book: la dame auxs camelias
chapter: 2
- book: uncle toms cabin
chapter: 2
- book: dombey and son
chapter: 2
- book: nicholas nickleby
chapter: 2
- book: of time and the river
chapter: 2
- book: the book of the it
author: georg groddeck
chapter: 2
- film: cries and whispers
dir: ingmar bergman
chapter: 2
- book: letters
author: john keats
note: 'november 1st 1820'
chapter: 3
- book: the magic mountain
chapter: 3
- book: the immoralist
chapter: 3
- book: wings of the dove
chapter: 3
- book: on the eve
author: ivan turgenev
chapter: 3
- book: the death of ivan ilyich
chapter: 3
- book: ordered south
author: robert louis stevenson
chapter: 3
- book: the dead
author: james joyce
chapter: 3
- play: she stoops to conquer
author: oliver goldsmith
chapter: 4
- book: the will to power
author: friedrich nietzsche
chapter: 4
- book: the beauty of the morbid
author: mario praz
chapter: 4
- book: "long day's journey into night"
author: eugene o'neill
chapter: 4
- book: Death in Venice
author: Thomas Mann
chapter: 5
- book: Ghosts
author: Henrik Ibsen
chapter: 5
- book: Doctor Faustus
author: Thomas Mann
chapter: 5
- book: The Black Swan
author: Thomas Mann
chapter: 5
- book: Les Misérables
author: Victor Hugo
chapter: 5
- book: The Phantom Chariot
author: Selma Lagerlöf
chapter: 5
- film: Ikiru
dir: Akira Kurosawa
chapter: 5
- book: Iliad
author: Homer
chapter: 6
- book: Odyssey
author: Homer
chapter: 6
- book: Testament of Cresseid
author: Robert Henryson
chapter: 6
- book: Les Liaisons Dangereuses
author: Pierre Choderlos de Laclos
chapter: 6
- book: Anthropology
author: Immanuel Kant
chapter: 6
- book: Proverbs of Hell
author: William Blake
chapter: 6
- book: A Hero of Our Time
author: Mikhail Lermontov
chapter: 6
- book: The Possessed
author: Fyodor Dostoevsky
chapter: 6
- book: Nausea
author: Jean-Paul Sartre
chapter: 6
- book: The Stranger
author: Albert Camus
chapter: 6
- book: Mein Kampf
author: Adolf Hitler
chapter: 9
- book: Bubu de Montparnasse
author: Charles-Louis Philippe
chapter: 9
- book: "L'école païenne"
author: Charles Baudelaire
chapter: 9
- book: Cancer Queen
author: Tommaso Landolfi
chapter: 9
- book: La Traviata
chapter: 9
- book: The Living City
chapter: 9
- book: The Prince
author: Niccolò Machiavelli
chapter: 9
- book: Leviathan
author: Thomas Hobbes
chapter: 9
- book: Reflections on the Revolution in France
author: Edmund Burke
chapter: 9
- film: Invasion of the Body Snatchers
chapter: 9
- film: The Incredible Shrinking Man
chapter: 9
- film: The Blob
chapter: 9
- film: The Thing
chapter: 9
literary-criticism
cultural-criticism
metaphor
illness
doença
metafora
victim-blaming
fantasia a cerca de tuberculose, ou câncer, são respostas a uma doença incurável numa época onde a premissa da medicina é a cura para todas as doenças.
o papel de doença incurável era da tuberculose, agora é do câncer até que para esse hajam tratamentos tão efetivos como se tornaram os de tb.
a doença que é temida e tratada como mistério é sentida como moralmente, se não literalmente, contagiosa.
pessoas com câncer são isoladas por amigos e família como por práticas de descontaminação.
contato com alguém infectado por uma doença vista como uma malevolência misteriosa é como uma transgressão.
stendahl, armance, 1827: a mãe do herói se nega a se quer falar a palavra “ tuberculose”.
enquanto a doença é tratada como um predador mal e invencível, é desmoralizante aprender ou ouvir seu nome.
a solução é desmistificar.
toda a mentiragem em volta do cancer, por e para pacientes, é uma medida de como se tornou dificil aceitar a morte nas sociedades industrialmente avançadas.
a morte é hoje um evento offensively meaningless.
conviccao que morte boa é a silenciosa, rapida e inconsciente.
a negação contemporanea da morte não explica a extensao daentira e vontade de ser enganado sobre a morte. não toca no pior pavor.
não há vergonha em ter um ataque cardiaco. pacientes de cancer sao enganados não por causa da sentenca de morte mas por que o cancer é obsceno, no sentido original, de repugnante, abominável.
cancer e tuberculose sao etimologicamente e tipologicente entendidas de forma semelhante: algo que consome o corpo, consumption; protuberancias no corpo, canker, tuberculo, tumor.
so com a microscopia se pode identificar a diferença.
os avancos da medicina permitiram que a metafora principal de cada doenca se tornassem diferentes e contrastantes, muito embora a fantasia sobre o cancer herda a dramatização da tb.
contrastes tirados da mitologia popular de cada doença:
tb: doenca de um orgao, pulmao.
cancer: qualquer orgao.
tb: contrastes
cancer: crescimento constante, incessante, medivel, letal.
tb: visivel e dramatico, raio x
cabcer: invisivel ate que seja tarde demais. descoberto por acaso, especialista
tb palpavel. cancer imaterial.
tb: desintegracao febril, mole, liquido
cancer: duro, degeneracao, granito, gravidez demoniaca
em ambas emaciação é esperado. mas em tb consumido, em cancer invadido.
tb highlight, spiritualize, gait, gallop
cancer stages, terminal
cancer é espacial, excise, diffuse, spread. perder uma parte do corpo se não morrer.
tb é pobreza e deprivacao.
tb painless. cancer excruciating
tb easy death. cancer wretched
as fantasias populares surgem porque tb e câncer são como death itself. kafka e dickens analogisam tb a morte em pessoa.
mesmo com avanços na medicina câncer muitas vezes ainda significa morte.
tb permite romantizar e astetizar a morte. isso ainda não é possível com o câncer.
a maior semelhanca entre tb e cancer é que se acteditava serem doencas da paixao.
entao tb igual paixao de mais. cancer igual paixao de menos.
tb is emption. cancer is repression of feeling.
tb sufferers are presented as passionate but are more characteristically deficient in vitality.
tb = being romantic was a thing since 1700
houve uma época em que era style parecer doente. consumptive outlook. isso é tipo a uber romantizacao do tb.
a romantização da magreza é muito bem um legado do fato acima.
“The romantic treatment of death asserts that people were made singular, made more interesting, by their illnesses. “I look pale,” said Byron, looking into the mirror. “I should like to die of a consumption.” “Why?” asked a friend who was visiting Byron in Athens in October 1810. “Because the ladies would all say, ‘Look at that poor Byron, how interesting he looks in dying.’”
sontag traça a romantização da estética de parecer doente, a parecer triste, estabelece que era algo real da cultura 18, 19. artistas queriam ser vistos como melancólicos ou tuberculosos.
tb se torna uma razão para o exílio, para viagem e para romantizar a vida pessoal.
se é difícil imaginar como a realidade de uma doença pode se transformar de forma tão absurda, podemos comparar com atos semelhantes de distorção na nossa época, assim a pressão de expressar atitudes românticas do eu.
a doença que foi romantizado no século vinte é a insanidade.
confinamento, sanatorium, asilo. insanidade é exilio. a viagem psíquica é uma extensão da ideia romântica de viagem associada a tb.
não é coincidência que “ficar doidão” é “viajar”
no século 20 parte das metáforas da tb vai para insanidade, parte para o câncer.
“Not TB but insanity is the current vehicle of our secular myth of self-transcendence.”
cholera, tb, cancer.
coletiva vs individual
a doença individual destaca o indivíduo. não é uma pandemia.
surgiram personalidades de tipos de pessoas que seriam sucessíveis a tb , câncer. a doença má e misteriosa sugere um julgamento profundo, tanto moral quanto psicológico.
o mundo antigo especulava as doenças como julgamento divino a pessoas específicas ou populações inteiras. no mundo moderno as doenças as quais fantasiamos sao vistas como auto julgamento ou auto traição.
wilhelm reich propõe um link entre a doença mortal e a pessoa que ela quer humilhar.
no mundo antigo a doença realçava o pior da população. no seculo 19 a tb elevava a virtuosidade do doente. tambem muito escritor escreveu o que queria pra se mesmo e morreu de tuberculose pelo visto. o personagem com câncer tem oportunidade de finalmente se comportar bem, se redimir
a cristianismo impôs noções moralizadas de doença.
para o cristão doença pode ser punição.
“In the nineteenth century, the notion that the disease fits the patients’ character, as the punishment fits the sinner, was replaced by the notion that it expresses character”
doença como linguagem para o drama.
ao passo que o excesso de sentimento se tornou algo positivo, doença deixa de ser uma metáfora para denegrir mas um veículo para esse excesso.
“Illness reveals desires of which the patient probably was unaware”
o prudente, dissociado, rotineiro, é a vítima ideal do câncer.
o ônus da cura no paciente. é como muitos ainda vendem fé. aquela coisa de culpar a vítima.
psychological victim blaming
ha uma longa história de noções punitivas da doença. é a situação com o câncer.
teorias antigas ainda afetam nossa cultura,
teorias onde a vítima é culpada pelo câncer.
expande de letal para vergonhosa.
a doença se torna metáfora e em nome dessa metáfora se impõem os horrores.
doenças venéreas são baixas, vulgares, elas atestam a uma ação repugnavel, o ato de fazer sexo com alguem doente.
nessa época não sei o quanto se estendia a vítima de câncer a culpa de se expor a coisas cancerígenas como o cigarro.
a multi causalidade do câncer contribui para a potência metafórica.
o medo de ter muita energia e a ansiedade de não conseguir gastar essa energia toda.
freud vê a energia ( vital ) escassa como em teoria econômica.
o câncer uma outra linguagem econômica, a do crescimento irrefreável. o câncer tem sua própria energia.
a visão capitalista na época contribui para as metáforas da doença.
as metáforas que controlam as descrições do câncer são retiradas não de economia, mas de guerra. invasão, ataque, contra ataque, batalha. colonização. defesas. bombardeio.
as metáforas militares se tornaram amplamente usadas quando as bactérias foram descobertas agentes das doenças.
as causas são associadas a doença a depender da época. hoje tudo causa câncer. a retórica é enganosa, responsabiliza o indivíduo. câncer toma forma de praga ou epidemia quando é associado a pautas ambientais.
Sontag monta o argumento que somos prejudicados como pessoas ao usar doenças como metáforas pois esse recurso assume um caráter moralmente punitivo, transformando a pessoa doente em vítima culpabilizada.
A ciência avança e se transforma com novas descobertas mas a retórica progride de modo hereditário: herdamos dos nossos antepassados conjuntos de metáforas aplicadas às doenças. Muita vezes essas metáforas servem pautas alheias a nosso bem estar.
Essas metáforas não apenas distorcem o entendimento, como também acrescentam camadas de significado imprecisas e cruéis, que acabam por responsabilizar moralmente a vítima pela enfermidade.
É preciso despir as doenças de suas metáforas. Pacientes merecem estar livres da culpa simbólica e do julgamento moral. Compreender a doença sem metáfora é libertador e mais humano.