um tipo de escrita do eu que se diferencia da autobiografia e do romance autobiografico.
estabelece com o leitor um pacto oximorico, que se caracteriza por ser contraditorio;
rompe com o principio da veracidade (pacto biografico), sem aderir integralmente ao principio da invenção (pacto romanesco/iccional).
a mescla dos dois resulta em um contrato de leitura marcado pela ambiguidade.
O conceito de autoficcao: demarcacoes a partir da literatura brasileira - Anna Faedrich
autoficcao é um termo forjado por Doubrovsky (1977)
recepcao problematica
— Mounir Laouyen (1999)
“morte do autor” barthesiana, em que autor perdia o poder sobre o texto publicado
pacto autobiográfico
Esse contrato de leitura consiste nos princípios de veracidade e de identidade
entre Autor, Narrador e Personagem-protagonista (A = N = P). O leitor interpreta
o texto autobiográico (autobiograias, conissões, testemunhos, diários, memórias
etc.) como a “verdade do indivíduo”, diferenciando-o do romance. Neste, o
compromisso com a realidade é impreciso (lou), diferente da autobiograia,
em que o pacto de veracidade traz consequências legais para o autor. Ainal, o
pressuposto do leitor é que o conteúdo traduz a verdade, comprometendo o autor.
[!] auto ficcao, nela se estabelece um pacto oximorico pois se caracteriza por ser contraditório, pois rompe com o princípio de veracidade (pacto autobiográico), sem aderir integralmente ao princípio de invenção (pacto romanesco/iccional).
O conceito doubrovskiniano pretende “aliviar” o autor do pacto autobiográico.
Doubrovsky (1977, capa) provoca: “Autobiograia? Não, esse é um privilégio
reservado aos importantes deste mundo, ao im de suas vidas, e em belo estilo.” O
movimento da autobiograia é da vida para o texto, e da autoicção, do texto para a
vida. Isso quer dizer que, na autobiograia, o narrador-protagonista é, geralmente,
alguém famoso, “digno de uma autobiograia”. Justamente por ser uma celebridade
desperta interesse e curiosidade no público-leitor. Na autoicção, um autor pode
chamar a atenção para a sua biograia por meio do texto iccional, mas é sempre o
texto literário que está em primeiro plano. Os biografemas estão ali funcionando
como estratégia literária de iccionalização de si.
o-que-amar-quer-dizer--mathieu-lindon
dizer que toda escrita do
eu é uma prática autoiccional, justiicando ser impossível não inventar e preencher
as lacunas da memória com icção, é a mesma coisa que negar à autoicção sua
especiicidade e ao autor sua intenção.
em-busca-do-tempo-perdido--marcel-proust
o exercício
autoiccional é anterior à sua formulação conceitual.
o-ceu-dos-suicidas--ricardo-lisia
o interesse morbido do leitorvoyeur na intimidade alheia, fazem com que livros cujo enredo trata de aspectos íntimos e/ou polêmicos da vida do autor ou de seu círculo de convivência e livros com intenção de impactar ao exibirem a intimidade de uma pessoa próxima tenham uma vantagem mercadologica -- mesmo que de qualidade literaria dubia. esse livros que tratam de aspectos intimos podem ou não ser autoficcionais.
[!]
penso que o mercado quer sim que a linha entre autoficcao e biografia se confundam, o mercado quer capitalizar no leitorvoyeur, parcela da populacao que cresce e é explorada por outros segmentos de mercado como o de reality shows, os conteúdos breves de redes sociais e até o cinema.
no cinema já temos uma definição para a autoficcao que para mim deixa tudo muito claro, é o "baseado em eventos reais", disclaimer que deixa a obra livre para inventarmas ainda se alicerçando na ideia do principio da verdade e na fama da pessoa em questão. a diferença claro, é que o filme "basead em fatos reais" não necessariamente é feito e estrelado pelo seu sujeito, mas ele carrega a mesma ambiguidade de estar entre a verdade e a invenção. o elemento chave é que o leitorvoyeur se interessa pelo elemento da verdade.
e assim o mercado audiovisual já explora essa noção particular de ficcao baseada em fatos reais para tornar a história mais interessante, ou fugir de temas polemicos enquanto capitaliza do voyeur e do valor do sujeito da obra. o mercado literário não teria motivo para ser diferente.
claro-enigma--clarlos-drummond-de-andrade
“Somente renovando a língua é que se pode renovar o mundo.”, diz Guimarães Rosa
Se o mundo moderno faz com que as coisas percam o sabor, cabe à arte devolvê-lo.
O autor se propõe a “explorar as profundezas inconscientes de sua intimidade, elucidar coisas ainda obscuras”, em uma “análise interminável”.
[!] anna faedrich busca afastar a verdadeira autoficcao, daquela que busca simplesmente expor a intimidade alheia e capitalizar no mercado -- esses, precisao da ideia de verdade para capitalizarem e chamr atencao, é uma ambiguidade mercadologica? ou simplesmente biografias pobres.
O autor se propõe a “explorar as profundezas inconscientes de sua intimidade, elucidar coisas ainda obscuras”, em uma “análise interminável”.
A escrita terapêutica, deve-se sublinhar, é característica própria às “escritas do eu”, vai além da autoicção e é irredutível a esta.
a obra como forma de vingança
Ainda
mais, não se deve confundir a obra autoiccional com obras cujo teor espelha
motivações midiáticas, originadas de razões eticamente questionáveis, com valor
literário dúbio e sem o pacto ambíguo. A interseção entre os dois tipos é apenas
aparente.